segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Do pouco que entendo de sentimento poético

Digo que a poesia
é um modo de ser
criança - cria
para onde quer.

As frases têm pernas:
Os poemas convidam
ao som e às imagens
das palavras amigas.

(Fernando Paixão. "Fantasia de autor".
in: Dia brinquedo. São Paulo: Ática, 2004.)

Olhos arregalados, olhos de quem enxerga o mundo pela primeira vez. Audição, visão e olfato em seus estados mais exaltados. Pouco fala, muito pensa; pensa em palavras, ritmo, rimas e anáforas. Cada instante de sua visão é reduzido a métrica e ampliado ao sentido. A construção poética revela então um outro mundo. Texto escrito. Ponto final posto.

Olhos arregalados, olhos de quem enxerga aquela página pela primeira vez. A visão esbanja preferência e a audição e o alfato tornam-se quase imperceptíveis. Pouco fala, muito pensa. Pensa em palavras, significados, figuras de linguagem e de pensamento. Cada métrica é ampliada à sua visão e o sentido extraído de cada rima, cada anáfora. A leitura poética revela então um terceiro mundo. Nunca o presenciado pelo poeta, jamais o metrificado, mas sim o contextualizado. Texto lido. E o ponto jamais é final, apenas um convite à releitura.



Estou lendo "Versos, sons e ritmos" da Prof. Dra. Norma Goldstein. Livro curto, mas de importância absurda. Recomendo a todos que gostam de poesia e lingüística.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Somos tropicais, não somos?

Todos sabem que moramos em um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Os trópicos nos deram o clima e os gringos nos nomearam latinos. Criamos então o chorinho, o samba e a bossa-nova; o Brasil marcava o mundo com seu ritmo e sua cultura digna da antropofagia pretendida por alguns modernistas. 1964 e muitos Atos Institucionais depois, enfrentamos uma ditadura militar que nos podaria em cada verso, em cada nota musical. Movimentos surgiram e até 1968 vivemos um clima de revolta de alma estudantil e faces juvenis, que se caracterizaria de esquerda e iria lutar contra aqueles que, com a tesoura na mão, faziam questão de decepar qualquer idéia de liberdade que brotasse em cabeças brasileiras.

Os movimentos de tradição esquerdista tomaram como marca a nossa cultura, era preciso ser patriota para derrubar a ameaça armada. O violão e os versinhos de Vinicius estariam em boas mãos: os jovens cantavam Jobim e assistiam Glauber Rocha, nada mais brasileiro do que ser alheio ao mundo, ser nacional. Era preciso construir uma geração de patriotas disposta a gritar contra a ditadura.

Do mesmo modo que a ferrenha ditadura acabou por criar a força dos movimentos libertários, essa radical esquerda provocaria o que viria a ser verdadeiramente tropical. O rock, as psicodélicas guitarras elétricas de Alegria, Alegria; o pop, o erudito e o brasileiro juntos: nascia a Tropicália.

Quebrando qualquer corrente brasileira já existente e baseando-se no movimento hippie norte-americano, o tropicalismo trouxe o verdadeiro sentimento libertário ao país. O movimento ocorreu entre 1967 e 1968, e trouxe ideais novos sobre sexo, música, comportamento e política. Um ódio movia a avant-guarde de baianos que chocavam as platéias dos festivais da TV Record acostumados a Buarques e Vandrés. "Viva a palhoça-ça-ça!". Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé e outras feras que compunham e inovavam a cada verso, jogaram-se contra tudo o que era convencional e marcaram à guitarras elétricas o novo jeito brasileiro de ser: o escândalo das cores, o ritmo, a poesia, a política de tudo que é contrário à dominação e a favor de tudo que é vinculado à liberdade de expressar o que se bem entende.

Os tropicalistas foram perseguidos e Caetano e Gil presos em dezembro de 1968. A ditadura rompia a vanguarda, mas a vanguarda romperia a ditadura mais tarde e perduraria até os dias de hoje, 40 anos depois, com as músicas, poesias e obras de arte que eternizariam as roupas coloridas e os cabelos encaracolados desses nobres tropicais.


Discurso de Caetano como reação às vaiais do auditório dos festivais de música da TV RECORD.

Que juventude é essa? Que juventude continua sendo essa?

terça-feira, 15 de julho de 2008

Sobre batuque e pandeiros mancos.

Pandeiro, pão-Demônio


Velho pandeiro que agora espanco,
velho, de couro velho e um prato manco,
madeira machucada que o tempo marcou,
em você marco o ritmo, a raiva e o que aqui passou.

O tapa é o forte que me abate.
O ritmo é a alegria - que esta não me mate.
O som quase típico, o copo inteiro etílico,
amigos rindo, alguém cantando e eu espanco.

Estanco o que de mim se aflora.
Nasceu a raiva e o nervosismo sua presença implora.
Morre aqui nesse tapa, meus devaneios,
meus medos, e em meus dedos, minha demora.

Morre o pensar, o penar, o esperar.
Morre ela e tudo o que dela minha solidão explora.
Nasce o riso, o pranto tolo. E outra samba,
e outra canta e eu rebolo.

Mão que de tanto bate que se abate o embate.
Desilusão, um toque, um tchau e um "vai-te...".
À merda, é claro. Porque pandeiro é malcriado
e de tanto apanhar fez-se meu criado.

Guilherme Assen, poema ao meu velho.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

A Bela e a Feira



Profetisa.

Ela vai para Austrália.
Depois de tudo, ela vai em boa hora.

Profetas, aos prantos, declamarão:
"Casará com um aborígene,
pintará o cabelo de roxo
e aprenderá a surfar!

Os amigos, todos eles,
em São Paulo vai deixar.
Por um sonho, maior que ela,
diz a Bella, que vale a pena buscar".

Rimas fracas de profeta.
Coração amigo de poeta fraco diz:
"Saudade. É tudo que vou guardar."

Já não sambo com mais ninguém.
Volte, minha nêga.
Volte e me faça sambar.

Guilherme Assen.

Sábado fui à Feira Moderna - lugar apaixonante. Loja de artesanatos e café durante o dia, bar e palco para o samba durante a noite. Um jardim bem cuidado e frequentadores bonitos. Cerveja Original e pinga original do nordeste, a Cajuína. A caipirinha é boa, mas isso já é uma redundância; com tantas qualidades e com bom samba qualquer limão e pinga ganha vida.

Garotas de vestidos azuis (ou verdes) também são vistas por esse lugar. Graça, beleza e samba. Samba de branco, de mulatos, de negros e de japoneses. Samba não tem cor, tem graça. Feira Moderna é um canto interessante na altura do número mil-duzentos-e-quarenta-e-poucos da rua Fradique Coutinho, Vila Madalena, São Paulo, São Paulo.

Para aqueles que não conhecem samba ou cajuína, fica a oportunidade. Para aqueles que conhecem garotas de vestidos verdes (ou azuis) corram pois estas costumam a sambar sozinhas, não falta homem, falta atitude. E para a Dona Isabella, que em breve deixará nosso Pindorama e rumará para sua aventura por terras australianas, toda a sorte e felicidade do mundo. Amo você e espero a volta da amiga para qualquer samba, qualquer dia desses.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Ao Mestre, com carinho

"Os verdadeiros versos não são para embalar,
mas para abalar..."

- Mario Quintana






domingo, 6 de julho de 2008

Da nova série: "Clique no poema"


A Poesia agradece.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

do Lat. "florescere"

Reforma dos espaços estudantis da FFLCH-USP; nada mais polêmico. O centro acadêmico não está satisfeito com as mudanças, os estudantes, confusos, não sabem se apoiam ou não, os departamentos reclamam que a faculdade precisa de uma reforma há muito tempo e o barulho, sempre ele, conspira contra as aulas de Estudos Literários.

Aprovada ou não, a reforma acontece. Tábuas cercam o canteiro e o que era um terreno entre mato e faculdade hoje é espaço para a mudança.

Fica, desse polêmico episódio na história do curso de letras da Universidade de São Paulo, a lição pichada nas, antes feias, tábuas que protegem a obra:

Foto: Larissa "Lalá" Cabrini

"...Rompeu o asfalto". Chego a pensar que o asfalto foi feito para ser rompido.

sábado, 28 de junho de 2008

Core de Cor

Passageiro de Core

Assumo, sou passageiro.
Desde então, vivo melhor.
De amores, vivo solteiro,
desilusões, sei de cor.

Guilherme Assen


Copos de cerveja e amigos queridos dando risada: Férias chegaram! Algumas caipirinhas, pinga e limão, sempre elas, e algumas redondilhas maiores, grandes antepassadas, surgem. Primeiro dia de descanso e a poesia se faz presente. Seja bem vindo sentimento de liberdade, que não seja eterno posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure.

Quanto ao livro de García Márquez, Santiago Nasar morre e eu finalmente sei o motivo. é o companheiro certo. "Crônica de uma Morte Anunciada" é um típico García Márquez, todo o mais dispensa comentários.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Um Desespero Crônico Anunciado.

Em "Crônica de uma Morte Anunciada", Gabriel García Márquez escreve sobre o inevitável e, não apenas nesse caso, o óbvio: a morte. A personagem do conto, Santiago Nasar, levanta-se às 5h30m da manhã de uma segunda-feira preocupando-se com a visita de um certo bispo em sua cidade. Sem saber, sonhos e outros sinais levam a conclusão do conto... Ele vai morrer! Como? Por quê? Só García Márquez e quem leu o livro até o final sabem. Eu, com minhas duas faculdades insistindo no massacre de trabalhos e textos, não consigo matar essa leitura. Menos de um mês para tudo isso acabar. Desespero anunciado. Copos de cerveja e noites bem dormidas que esperem.

E pensar que o penar de tudo isso é passar um mês sem nem sentir os passos dela.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Sobre o Vago

Um vago passeio pelo Shopping, desculpem o pleonasmo, e uma constatação: é o máximo de nossa civilização. Vitrines, chão limpo, pessoas educadas e até mesmo vendendores educados. Casa das cuecas, dos computadores, das camisas de engomadinhos e até gravatas encontram-se por ali. É o comum que comunista algum sonhou encontrar. Todos somos igualmente nulos e, vestidos iguais e com cortes de cabelo muito parecidos, almoçamos as mesmas caríssimas porcarias. Só há um problema com este acumulado: as lojas de sabonetes não respeitam os outros cheiros.